Governança Dual nas Cooperativas: A Reforma do Sistema OCB e o Que Ela Significa para a Sua Organização
O modelo de governança dual é uma estrutura organizacional que separa claramente duas instâncias: o Conselho de Administração, responsável pela direção estratégica, pelo controle e pela representação institucional; e a Presidência Executiva (ou Diretoria Executiva), encarregada da gestão operacional do dia a dia.
Nas cooperativas tradicionais, essas funções frequentemente se confundem, o que pode gerar concentração de poder, conflitos de interesse e lentidão nas decisões. Portanto, a separação não é apenas uma questão de eficiência — é uma questão de integridade e de alinhamento com os princípios cooperativistas de transparência e controle democrático.
Na 28ª Assembleia Geral Extraordinária do Sistema OCB, realizada em Brasília em 9 de dezembro de 2025, foi aprovada uma profunda reforma do Estatuto Social. Com isso, Márcio Lopes de Freitas passou a presidir o Conselho de Administração — concentrando a atuação institucional e política — enquanto Tânia Zanella assumiu a Presidência Executiva, tornando-se a primeira mulher a ocupar o cargo na história da entidade.
“A reforma representa um salto necessário para garantir sustentabilidade institucional, transparência e modernização do cooperativismo brasileiro.”
— Márcio Lopes de Freitas, presidente do Conselho de Administração do Sistema OCB, dez. 2025
Em abril de 2026, a Ocepar (Organização das Cooperativas do Paraná) seguiu o mesmo caminho, aprovando em assembleia a adoção do modelo dual com a criação de um conselho deliberativo. Além disso, diversas OCEs estaduais já sinalizaram interesse em adotar estrutura semelhante ao longo de 2026.
A separação entre governança estratégica e gestão executiva traz vantagens que vão muito além da organização do organograma. Entre os benefícios mais relevantes estão:
Decisões mais ágeis e de maior qualidade: quando o conselho foca em estratégia e os executivos focam em operação, cada instância atua com mais profundidade e clareza de propósito.
Maior transparência e controle: a separação de funções reduz o risco de acúmulo de poder e facilita a fiscalização pelo Conselho Fiscal e pelos próprios cooperados. Dessa forma, a democracia cooperativista sai fortalecida — não enfraquecida.
Profissionalização sem perda de identidade: é possível ter gestores executivos altamente qualificados, inclusive não cooperados (em alguns casos), sem abrir mão da direção estratégica pelos representantes eleitos pelos cooperados.
O modelo dual não está restrito a grandes sistemas. Cooperativas singulares e de menor porte podem — e devem — se inspirar nesses princípios, adaptando-os à sua realidade. O primeiro passo é a revisão do estatuto social, definindo com clareza as competências do Conselho de Administração e da Diretoria Executiva, evitando sobreposições.
Contudo, a mudança de estrutura precisa ser acompanhada de uma mudança de cultura: conselheiros precisam exercer efetivamente o papel estratégico e de fiscalização — não apenas homologar decisões executivas. Por outro lado, diretores executivos precisam de autonomia real para gerir, sem interferência indevida do conselho no operacional.
Além disso, a profissionalização da governança exige investimento em formação. O SESCOOP oferece cursos específicos de governança cooperativa, e o Manual de Boas Práticas de Governança Cooperativa, publicado pelo Sistema OCB, é um ponto de partida valioso e de acesso gratuito.
A posse de Tânia Zanella como primeira presidente executiva do Sistema OCB marcou também um avanço de representatividade. A agenda de 2026 inclui, entre as prioridades do Sicoob, “equilibrar a composição dos órgãos superiores de administração, com presença mais expressiva de mulheres e jovens” — reconhecendo que a diversidade na governança não é apenas uma questão de equidade, mas de qualidade decisória.
A governança dual em cooperativas prova que é possível modernizar a gestão sem abrir mão dos princípios democráticos. O desafio está em implementar com consistência — não apenas no estatuto, mas na prática diária de cada reunião de conselho e cada decisão executiva.
Gestão Democrática nas Cooperativas: Uma Voz, Um Voto
Plano de carreira: é possível construir um no cooperativismo?
🏛️ A sua cooperativa tem funções estratégicas e executivas claramente separadas?
Essa é uma das perguntas mais importantes de governança. Deixe seu comentário e compartilhe com quem cuida da gestão da sua cooperativa. Vamos aprofundar o tema com um checklist de boas práticas em breve.
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